
É afogada em lágrimas que a funcionária pública Aline Bérgamo, 27 anos, lembra que a primeira vez que olhou nos olhinhos de sua filha a menina já estava com seis meses de vida. “Naquele momento eu descobri que precisava dela e ela de mim”, diz. A conclusão pode parecer óbvia, mas não era logo depois do
nascimento de Maria Clara, há dois anos. Vítima de depressão pós-parto, doença que costuma manifestar-se nos primeiros meses da chegada da maternidade, Aline demorou a criar laços afetivos com o bebê e travestiu de cansaço a falta de disposição para cuidar dele. “Eu era muito focada na carreira e, no fundo, culpava minha filha pelas mudanças na minha vida. Tentava evitar que ficássemos sozinhas e detestava a ideia de fotografá-la.”
O pediatra de Maria Clara notou que havia algo errado na relação entre mãe e bebê e encaminhou Aline a um psiquiatra. “Participei de um grupo de terapia e ali descobri que a depressão pós-parto é muito mais comum do que eu poderia imaginar. Isso me deu conforto”, lembra. Segundo as estatísticas médicas, o problema atinge até 20% das parturientes. Para o senso comum, o número pode parecer menor como consequência de muitas mulheres enfrentarem sua angústia na mais completa solidão. “Como tudo ao redor da mãe é só felicidade, ela fica inibida em falar sobre os sentimentos ruins e silencia”, explica Aline.
Tempos atrás, ter filhos era destino. Agora é escolha, mas ainda há muitas mulheres que acreditam que só se sentirão realizadas depois de gerar um bebê. “Existe muita idealização entre as grávidas, uma expectativa de que o pós-parto será um momento mágico”, afirma o psiquiatra Joel Rennó Júnior, coordenador do Projeto de Atenção à Saúde Mental da Mulher do Hospital das Clínicas de São Paulo.
É comum que no pós-parto as mães se deparem com uma realidade diferente da que esperavam. Cuidar de um recém-nascido dá um trabalho danado. O corpo demora a voltar à sua forma pré-gravidez. A amamentação nem sempre acontece sem desconforto ou dificuldades. Os hormônios ficam desregulados. Diante de tudo isso, a resposta pode ser um quadro de irritabilidade, mudanças de humor, tristeza profunda, desinteresse pelas atividades do dia a dia e pelo bebê, sensação de incapacidade de cuidar dele.
Nos casos mais graves, as vítimas da doença chegam a ter pensamentos suicidas ou de violência – imaginam sufocar a criança, empurrá-la pela escada ou atirá-la pela janela. “As mães sofrem muito, ficam preocupadas com a segurança do recém-nascido. Mas as ideias são apenas ideias. Casos de infanticídio são raríssimos”, afirma Rennó Jr.
Mãe de uma menina de 2 anos, a estudante Vanessa Freire Cardoso, 23, pediu ao marido que escondesse as facas da casa nos primeiros meses de vida da pequena Camila. “Eu tinha medo de fazer uma besteira. Em mim a depressão foi tão forte que eu não conseguia nem amamentar, nem pegar minha filha no colo. Eu não dava conta nem de tomar banho!” Vanessa precisa se cuidar até hoje com antidepressivos e faz consultas periódicas a uma psicóloga e a um psiquiatra (o tratamento se dá por meio de remédios ou terapia ou a combinação de ambos). Ainda não se sente curada. Hoje, sente vontade de passar todo o tempo com a filha, a ponto de não conseguir trabalhar. “Amo muito a Camila e sei que a fiz sofrer. Fiquei tão traumatizada com a doença que resolvi não ter mais filhos. Não quero fazer outra criança passar por isso.”
outra vidaA webdesigner Danielle Pessanha, 23, chorou muito durante os meses em que sua barriga crescia e crescia. Ela encarou a gestação de Letícia, 3, com apenas três meses de namoro com o pai da criança, com quem se casou e está até hoje. Quando a menina nasceu, Danielle irritava-se muito com o choro dela. “A Letícia só parava quieta no meu colo e ficar o tempo todo com ela nos braços me deixava exausta”, confessa. “Eu sentia saudade da minha vida de antes, de ver meus amigos e me divertir. Amamentar doía, meu corpo estava feio e eu não tinha vontade de receber visitas. Achei que sair de licença maternidade seria como tirar férias, mas nunca dormi tão pouco como naquela época.” A tristeza foi se agravando e a paciência de Danielle com a criança, diminuindo. Depois de quatro meses sofrendo, ela buscou ajuda, incentivada pelo marido. “Mas só comecei a melhorar de verdade quando voltei ao trabalho e à rotina.”
“Nada de se culpar, procure um médico!”Fabiana Faria é repórter do site de GLOSS. Tem 28 anos e uma paixonite pelo filho, João Victor. Quer arrancar um sorrisão dela? Pergunte sobre o bebê. É esse o desfecho feliz de um período infernal. Fabi teve depressão pós-parto e conta aqui como foi:
“Só passei a amar meu filho de verdade quando ele completou 7 meses. Antes, minha relação com ele era distante, automática. Quando senti as dores do pós-parto, pensei: ‘Será que vale tudo isso por causa de um filho?’. Meu tormento começou. Dias de choro, crises de pânico, medo de ficar sozinha, de perder meu marido. Como na minha família tem casos graves de depressão, na primeira semana de vida de João Victor eu já comecei a tomar o remédio receitado pela obstetra e marquei consultas com um psiquiatra e uma psicóloga. Lá se vão oito meses de tratamento e eu me considero curada da depressão pós-parto, mas não de traumas que me fizeram tê-la. Por isso, continuo com a medicação e a análise, que foram fundamentais para me botar nos eixos.
Filho muda mesmo a vida da gente e essa coisa de instinto materno é balela (logo que ele nasce você não sabe nada). É bacana ler muito sobre os primeiros meses, se possível fazer um ‘estágio’ com algum bebê da família... E tenha consciência: até a sua vida voltar a uma rotina decente e gostosa, lá se vão alguns meses e muitas noites maldormidas. Não queira ser a Mulher Maravilha: aceite ajuda da mãe, da babá, da empregada, da vizinha, da amiga... Falta de sono deixa qualquer um louco! Ah, e pode acontecer de você não se apaixonar automaticamente pelo seu filho logo que ele nascer, viu?! Rola ternura, mas amor daquele que dói no coração pode aparecer com o tempo. E será um momento mais do que especial, pode ter certeza!
O mais importante: se você se identificou com a matéria, pare de se culpar e procure um médico. Depressão pós-parto não passa com pensamento positivo, é um problema fisiológico. Não tenha medo nem preconceito de tomar remédios e resolva suas neuras na terapia. Seu filho e sua família agradecem!”
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