Bate-Papo dos humoristas Bruno Mazzeo e Fernando Caruso

Fernando Caruso e Bruno Mazzeo

Um é filho de Chico Anysio. O outro, do chargista Chico Caruso. Humoristas por natureza, Bruno Mazzeo e Fernando Caruso falam sobre o DNA para a comédia, do humor no dia-a-dia, do espaço do riso hoje, de relacionamentos. Num papo ora descontraído, ora (quase) sério.

Por: Carolina Zappa
Foto: Dani Dacorso

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Fernando Caruso: Uma pergunta que me fazem muito e você também deve ouvir é "qual é a influência do seu pai na sua carreira". Como a comédia é encarada na sua casa? O fato de seu pai trabalhar com humor muda o prisma?
Bruno Mazzeo: Tudo que meu pai conseguiu na vida foi com a piada. O humor, para ele, é trabalho. Ele tem uma visão de humorista, mas nunca levamos como "somos gaiatos, engraçados". Ele podia ser advogado. Aliás, tenho quase certeza de que ele não queria ser comediante.

FC: Encaramos o humor com seriedade. Lembro dos amigos do meu pai em casa: Millôr Fernandes, Jaguar, Veríssimo. O rei da mesa era quem botava todo mundo para rir. Para fazer parte daquele mundo eu tinha que dominar o humor, então sempre levei a sério. Meu pai, aliás, é uma pessoa séria em casa.
BM: Acho que os humoristas, de uma forma geral, são. Claro que meu pai vai fazer eventualmente uma piada, mas sem necessidade de ser engraçado sempre. Ele é pai, tem que fazer vistoria, ver se está estudando. Às vezes fica contrariado num restaurante porque o pedido veio errado, aí vem o cara e fala: "pô, mas você não é humorista?".

FC: Por meu pai trabalhar com humor, se não era a pessoa mais engraçada dentro de casa, eu entendia que ele não ia querer levar trabalho para casa. Ia ver o jornal e queria que eu calasse a boca. O humor, de certa forma, era uma maneira de me aproximar dele. Acabou sendo algo que segui naturalmente, não planejei. Estudei publicidade.
BM: Vocês já tiveram choque de gerações? De fazer uma piada e ele não entender?

FC: Atuamos em áreas diferentes, ele no desenho político e eu no teatro. Meu pai é meio coruja nesse sentido. Enxerga em mim algo que talvez não tivesse o mesmo domínio. Ele é minha melhor platéia, mostra para todo mundo, morre de rir, se diverte.
BM: Quando comecei, minhas referências eram Chico Anysio Show, Viva o Gordo e Os Trapalhões. Depois fui conhecendo Monty Python (grupo inglês), Woody Allen, Seinfeld. O Monty Python, pro meu pai, não diz nada. Quando surgiu, ele já tinha 30 anos de carreira. Para ele, é o NX Zero do humor. Acho que ele já está de certa forma blindado para novas referências.

FC: Como é seu processo de criação, de onde tira as idéias?
BM: Tiro muito do dia-a-dia, é um olhar de quem escreve humor. Quando você vê uma situação bizarra já busca a piada daquilo.

FC: Para mim acontece numa ordem contrária. Penso mais em como vou interpretar, passar para a pessoa a minha experiência. Se estou numa mesa com amigos, o riso deles serve de inspiração para levar algo pro palco. Nunca levo no escuro, é meio trapaceiro. Parece experiência científica com humanos. O namorado da sua amiga, o cunhado de Piracicaba, são a maior antena. Se neguinho riu e eles riram menos, vejo que não funciona.
BM: Você pára pra pensar se alguma piada é muito sofisticada, não vão entender? Uma coisa que aprendi é que você não tem que dar o peixe na boca do povo. Tem que botar no anzol e deixar o povo pegar. É mais interessante que fazer o popular, a mulher com bunda de fora, acho que o povo não precisa disso.

FC: Acho que faltam espaços alternativos, mas o humor popular tem sua validade. Fazendo o Zorra Total, quando vou pro interior, vejo que as pessoas têm uma apreciação sincera do programa.
BM: As pessoas esperam que você seja engraçado o tempo todo?

FC: Quando isso acontece acho bem chato. Depende da forma como você se apresenta. Se chega muito galhofeiro, querendo fazer gracinha, acaba chamando isso. Não faço graça com quem não conheço, só se me sinto à vontade.
BM: Não rola o "conta uma piada aí". Mas tem o cara que vem fazer uma piada, eu simpaticamente rio.

FC: Não gosto quando o cara, antes de se apresentar, vem querendo fazer piada comigo. Tenho todo direito de achar sem graça. Só porque sou comediante tem que fazer piada? É a mesma coisa que o cara ser engenheiro e você querer fazer uma ponte pra ele. Quando vem falar numa boa sobre comédia converso horas, dou telefone, MSN, o cara não consegue se livrar de mim nunca mais.

FC: O humor atrapalha ou ajuda num relacionamento?
BM: Sempre me dei bem foi no humor.

FC: Eu também. Tinha uma época que me dava bem porque era muito bonito (risos).
BM: Não tem que ser necessariamente engraçado, mas o bom-humor está relacionado à inteligência, acaba de certa maneira seduzindo...

FC: Ou enganando a pessoa! Só consegui pegar gente nessa vida através da piadinha. Nunca peguei ninguém calado. Sempre tive q convencer com muito papo e humor.
BM: Qual a diferença entre homens e mulheres?

FC: A diferença é meio clara, anatômica, só o Ronaldinho que não viu (risos). Sempre me dei melhor com mulher. Andava com as meninas no colégio, todo mundo achava que eu era gay, elas achavam que eu era amigo, eu só queria pegar...
BM: Tem algum tabu? Com o que você não faz piada?

FC: Não gosto de zoar a platéia gratuitamente.
BM: É, o cara se veste, sai de casa, paga ingresso pra te ver, é deselegante. Não faço piada com tragédia. Nem humilho ninguém.

FC: O humor que faz as pessoas se sentirem mal não é legal. 


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