
Preta Gil e Tico Santa Cruz têm muito em comum: já posaram sem roupa e não fogem de nenhuma pergunta. Nesta entrevista, eles falam sobre a fama de aparecidos, sobre responsabilidade social, popozudas e... depilação
Tico Santa Cruz – Nós éramos da mesma gravadora quando saiu o CD que tinha a foto sua nua. Achei um trabalho corajoso e legítimo.
Preta Gil – Eu tinha dinheiro, vida estabelecida e de uma hora para outra quis cantar. Pensei num ensaio nu por pura vontade de me revelar. Meu tio Caetano e minha tia Dedé já tinham feito isso nos anos 70, no disco Joia. Achei que num país abençoado por Deus, bonito por natureza, onde tem mulher pelada no Carnaval, um peito não faria mal a ninguém. Era algo artístico, poético, mas só você e mais uma meia dúzia de pessoas entenderam. Durante anos isso atrapalhou muito minha carreira.
T – Queria saber a sua opinião sobre a exposição das mulheres no axé e no funk… Por que elas permitem ser transformadas em objeto?
P – Primeiro a gente tem de entender que existe outra realidade que não é a nossa. Eu também acho de muito mau gosto um cara pegar a mulher pela calcinha e ela ficar rebolando, mas quem sou eu para julgar? Eu não vivo na comunidade funk, não vim do gueto do axé em Salvador. Essas mulheres não veem na mídia as popozudas, as com coxão, as boazudas. Então ficam sem parâmetros, não se gostam, acham que estão gordas, tomam remédio... Chega um homem e enfia a mão na calcinha delas, de tão carentes, elas acabam gostando.
T – Tenho medo de que as mulheres percam o respeito que merecem.
P – Ah, eu vejo isso acontecer mais ainda na classe média! Meninas bonitas, bem-criadas, caindo de bêbadas, fazendo a dança da cavadinha igual no baile funk! A mulher foi perdendo o respeito por si pela falta de referências do que é real e possível. É tudo inatingível hoje. Legal agora é ter a bolsa bacana, e não ler um livro. Legal agora é fazer as luzes no salão tal, e não ir para Paris visitar o Louvre.
T – Mas a classe artística contribui para esse tipo de comportamento, ajuda a fomentar o consumismo... Pouca gente usa a mídia para mandar uma mensagem legal.
P – Não sou politizada, mas tenho a minha bandeira, que é a da auto-estima da mulher. Tico, eu já vi muita gente criticá-lo, inclusive do nosso meio, por você esfregar algumas questões na cara... Dizem que você quer aparecer. Você já teve raiva de ser incompreendido?
T – Ah, ainda que fosse verdade, por mim tudo bem querer aparecer com algo que pode gerar reflexão e debate! Se tem um garoto na rua botando um revólver na cabeça das pessoas, isso é reflexo de uma situação política que está sendo levada há anos sem interferência da classe artística. Eu percebo o constrangimento de algumas pessoas quando me encontram. Pensam que eu cobro delas a presença. Sei que sou o chato da festa, mas tem de ter um chato.
P – Tico, eu vou contar uma coisa horrorosa... Meu filho raspou a perna depois de ler em algum lugar que você tinha feito depilação. Ele raspou uma perna toda até a coxa e a outra até a metade. Quando eu vi, falei que ele era maluco e ele respondeu que se o Tico Santa Cruz podia fazer, ele também podia. Disse que quando ficar muito rico vai fazer depilação a laser e arrancar tudo.
T – Sério? Tá vendo?! A depilação foi o que me alçou ao rótulo de celebridade (risos). Como eu tenho muita tatuagem, não faz o menor sentido ficar com cabelo, mas as primeiras experiências nessa área foram terríveis. Usei uma gilete e não tinha raspado nem a batata da perna e já tinha esgotado a lâmina. O vapor dentro do banheiro começou a me sufocar... No dia seguinte, fui correr na praia de sunga, uma coxa ficou batendo na outra, me deixou assado. Aí escrevi uma crônica sobre a experiência e fiz uma foto pelado com capacete para o meu blog. Mas não tinha muita ideia do que viria pela frente.
P – Isso foi bacana, viram que você tem humor! A gente não pode mesmo se levar a sério o tempo inteiro. O perigo é cansar a si mesmo. Pessoas como nós, muito intensas, costumam se “autocansar”.
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